«Não há fé inabalável senão a que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da humanidade.»
A frase circula solta, em epígrafes, cartazes e materiais institucionais, quase sempre sem localização, sem edição e sem data. Tem as três, e tem mais do que isso: é a epígrafe original. Kardec escolheu-a para a folha de rosto de um livro que estava à venda em Paris em abril de 1864.
Nos dezoito meses à volta dessa impressão fixaram-se em letra de forma três posições sobre a fé, a razão e o milagre. A de Ernest Renan, desde junho de 1863: banir o milagre da história, não por o declarar impossível, mas por nunca ter sido constatado. A de Roma, reunida em dezembro de 1864 no Syllabus, que compilava condenações já formuladas contra o racionalismo e outras correntes modernas. E, entre as duas, no rosto de um livro, a de Kardec.
Convém dizer desde já o que este artigo não faz:
Não pretende demonstrar uma influência direta entre estes textos. Nada prova que Kardec tenha escolhido a divisa a pensar em Renan, nem que Roma tenha compilado o Syllabus a pensar em Kardec. A cronologia autoriza uma afirmação mais modesta, e ainda assim significativa: em dezoito meses, três posições sobre a fé e a razão foram impressas no mesmo campo polémico. O que se segue tenta devolver a máxima ao seu lugar: o rosto onde apareceu, o momento em que foi publicada e a controvérsia em que se inscreveu.
O rosto e o capítulo
A frase é, antes de tudo, a divisa que Kardec pôs à entrada do livro. No rosto da primeira edição, de 1864, lê-se, em itálico e distribuída por três linhas:
Il n’y a de foi inébranlable que celle qui peut regarder la raison face à face, à tous les âges de l’humanité.
«Não há fé inabalável senão a que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da humanidade.»
A Revue Spirite de abril de 1864 anuncia a Imitation de l’Évangile selon le Spiritisme como estando à venda e reproduz a mesma epígrafe. [1] A fonte não fixa o dia exato em que o volume entrou em circulação, mas mostra que já estava à venda nesse mês.
Uma frase escolhida para o rosto não é um remate que o leitor encontra pelo caminho. É um programa declarado antes de o livro se deixar ler. A colocação já é metade do sentido.
E, dentro do volume de 1864, era só isso: uma divisa na folha de rosto. O ponto merece ser sublinhado, porque contraria a leitura corrente.
O capítulo XIX, «La foi transporte les montagnes», existia já na primeira edição e tratava a condição da fé inabalável. A máxima, porém, não figurava no corpo do capítulo. O parágrafo correspondente, então numerado 233 na numeração contínua do volume, fechava de outra maneira:
On croit, parce qu’on est certain, et l’on n’est certain que lorsqu’on a compris; voilà pourquoi elle est inébranlable.
«Crê-se porque se tem certeza, e só se tem certeza quando se compreendeu; eis por que ela é inabalável.»
Numa revisão posterior, esse fecho foi reescrito e a frase da divisa desceu ao corpo do capítulo, como item 7. [2] Em abril de 1864, a sua colocação no rosto era o gesto único e integral: a máxima antecedia o argumento, ainda não o rematava.
Há outro dado a fixar. A frase não vem atribuída a nenhum Espírito. Cada capítulo distingue a exposição editorial de Kardec das «Instructions des Esprits» recolhidas em sessão. A máxima pertence à primeira parte, e ao próprio rosto. É a voz editorial de Kardec, não uma comunicação.
Também o título ajuda a datar. A primeira edição, de 1864, chama-se Imitation de l’Évangile selon le Spiritisme. O título definitivo, L’Évangile selon le Spiritisme, surge na edição de 1865, e o texto é de novo revisto pelo autor em 1866. [3] A máxima pertence, pois, ao primeiro momento da obra, anterior à forma pela qual ela ficaria conhecida.
A frase teve vida para lá da epígrafe. Kardec voltou a usá-la na Revue Spirite, em outubro de 1866, num artigo intitulado «Les temps sont arrivés», onde a apresenta como princípio contra a fé cega e a obediência passiva:
Par cet autre principe: Il n’y a de foi inébranlable que celle qui peut regarder la raison, face à face, à tous les âges de l’humanité, il détruit l’empire de la foi aveugle qui annihile la raison, de l’obéissance passive qui abrutit; il émancipe l’intelligence de l’homme et relève son moral.
«Por este outro princípio: Não há fé inabalável senão a que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da humanidade, [o Espiritismo] destrói o império da fé cega, que aniquila a razão, e da obediência passiva, que embrutece; emancipa a inteligência do homem e eleva-lhe a condição moral.» [4]
Não era uma frase de circunstância, pousada num rosto e depois esquecida. Kardec regressou a ela, dois anos depois, e apresentou-a como princípio do Espiritismo.
O argumento que a máxima comprime resume-se sem esforço. A fé não se decreta. A que é aceite sem exame quebra à primeira objeção séria, porque nunca aprendeu a responder, e tende ao fanatismo quando se sente ameaçada. A fé raciocinada, apoiada nos factos e na lógica, atravessa a dúvida porque sabe de onde vem a sua certeza. Só merece chamar-se inabalável a fé que suporta o exame.
Uma máxima no seu tempo
A 24 de junho de 1863, a editora Michel Lévy frères pôs à venda a Vie de Jésus, de Ernest Renan, primeiro volume da Histoire des origines du christianisme. [5] Renan, antigo seminarista de Saint-Sulpice tornado filólogo, tinha sido suspenso do curso do Collège de France no ano anterior, depois de tratar Jesus como «um homem incomparável» na aula inaugural de fevereiro de 1862.
A obra aplicava aos Evangelhos os métodos da crítica histórica e filológica. As fontes eram datadas, comparadas e avaliadas como documentos. O milagre era afastado da história, não por o autor o declarar impossível, mas por considerar que nunca fora constatado:
Ce n’est donc pas au nom de telle ou telle philosophie, c’est au nom d’une constante expérience, que nous bannissons le miracle de l’histoire. Nous ne disons pas: «Le miracle est impossible»; nous disons: «Il n’y a pas eu jusqu’ici de miracle constaté.»
«Não é, pois, em nome desta ou daquela filosofia, mas em nome de uma experiência constante, que banimos o milagre da história. Não dizemos: “O milagre é impossível”; dizemos: “Não houve até agora milagre constatado.”» [6]
Jesus permanecia uma figura humana admirável, sem que Renan lhe reconhecesse natureza divina. O escândalo foi imediato. A primeira tiragem foi de dez mil exemplares. Entre 1863 e 1864 sucederam-se doze edições, e a Congregação do Índex condenou o livro ainda em 1863. Em junho de 1864, uma bibliografia da polémica reunia já mais de duas centenas de títulos, muitos deles panfletos hostis. [7]
Dezoito meses depois, a 8 de dezembro de 1864, Pio IX publicou a encíclica Quanta Cura, acompanhada do Syllabus errorum. O documento não foi escrito como resposta a Renan ou a Kardec: reunia proposições já condenadas em textos pontifícios anteriores. Entre elas estava a de que a razão humana, sem qualquer referência a Deus, seria o único árbitro do verdadeiro e do falso, do bem e do mal. Estava também a de que as profecias e os milagres narrados nas Escrituras seriam invenções poéticas e o próprio Cristo uma figura mítica. E estava, por último, a de que o Pontífice romano poderia e deveria reconciliar-se com o progresso, o liberalismo e a civilização moderna. [8] Roma não recusava o uso da razão. Recusava-lhe a soberania última quando desligada de Deus.
Entre estas duas datas, Kardec publica e é visado. Em abril de 1864, a Imitation está à venda. Nesse mesmo mês, um decreto da Congregação do Índex, de 25 de abril, condena o Livre des Esprits, o Livre des Médiums, Le Spiritisme à sa plus simple expression e a própria Revue Spirite. No entanto, a Imitation não figura nessa entrada, muito provavelmente porque o processo já se encontrava fechado quando a obra foi publicada, no mesmo mês em que saiu o decreto. [9] Não era a primeira vez que a censura eclesiástica o alcançava: em outubro de 1861, por ordem do bispo de Barcelona, cerca de trezentos volumes e opúsculos espíritas, entre eles obras suas, tinham sido queimados num auto de fé. [10]
É também nas semanas seguintes à publicação da Imitation que Kardec se ocupa de Renan. A Revue Spirite dedica à Vie de Jésus dois artigos, em maio e junho de 1864. [11] O ponto de partida é de método. Um livro daqueles, escreve Kardec, só se refutaria por inteiro com outro livro. Não fará a discussão artigo a artigo, porque várias das questões não são do seu foro. Distingue, em toda a obra histórica, o relato dos factos, que depende da erudição e da boa-fé, e a apreciação desses factos, que depende da opinião pessoal.
A concessão é significativa. Kardec não rejeita o terreno da crítica documental, nem responde a Renan pela invocação da autoridade dogmática: nos dois artigos, o que recusa é a exclusão do invisível como causa histórica. [11] No Livre des Esprits, de resto, à pergunta pelo modelo mais perfeito oferecido por Deus ao homem, a resposta é «Vede Jesus»: guia e modelo, é esse o estatuto que o corpus lhe dá nesse lugar. [12]
Daí uma terceira posição, irredutível às outras duas. Contra Renan, Kardec defende a realidade do mundo invisível como causa. Contra a censura eclesiástica, recusa que a fé se subtraia ao exame. Não aceita que a falta de um milagre constatado, segundo os critérios de verificação enunciados por Renan, baste para excluir causas invisíveis, e não aceita uma fé legitimada pela autoridade e protegida do tribunal da razão. A fórmula do rosto condensa essa pretensão: uma fé só se apresenta como inabalável depois de comparecer perante a razão, em todas as épocas.
Da máxima ao método
A frase não era um ornamento à entrada do livro. Condensava uma regra de trabalho.
A proximidade editorial é clara: o mesmo número da Revue Spirite que anuncia a Imitation à venda publica «Autorité de la doctrine spirite. Contrôle universel de l’enseignement des Esprits» («Autoridade da doutrina espírita. Controlo universal do ensino dos Espíritos»), o texto que a obra integra na introdução. [13] Divisa e método saíram juntos, no mesmo mês.
O princípio é simples. Nenhuma comunicação, venha do médium que vier, assine-a o Espírito que a assinar, adquire, por si só, autoridade geral. Só se integra no corpo de ensinamentos aquilo que encontra concordância entre comunicações obtidas de forma independente, por médiuns diferentes e em lugares diferentes. A autoridade desloca-se, pelo menos no programa, do emissor para o cruzamento das fontes. Não basta o nome que assina, nem a impressão causada, nem a adesão de um grupo: é preciso comparar, cruzar e examinar.
Lida contra esse fundo, a máxima diz o que o método pretende praticar: nenhuma proposição fica isenta de exame, a começar pelas do próprio Espiritismo. Kardec exprime-o sem rodeios numa alocução aos espíritas de Bruxelas e de Antuérpia, em 1864: o Espiritismo seria uma ciência positiva, assente na observação de factos. [14] A pretensão implica um risco: se os factos não sustentarem o edifício, o edifício cai.
No entanto, a concordância dependia de seleção, comparação e interpretação, e essa tarefa passava em larga medida por uma só pessoa: Kardec dirigia a Revue, presidia à Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas e ocupava o lugar central na fixação do corpus. A dispersão das comunicações não eliminava a concentração do trabalho editorial. E mesmo comunicações vindas de médiuns e lugares diferentes circulavam num espaço comum, feito das mesmas publicações, das mesmas redes de correspondência e das mesmas expectativas. A distância geográfica, por si só, não garantia independência informacional.
Kardec respondia que os ensinamentos não tinham por garantia as luzes de um só homem, mas a convergência de comunicações recebidas em muitos lugares, sem privilégio exclusivo de ninguém, e apresentava-se como observador e organizador de um movimento geral, não como legislador que o impunha. A resposta reafirma o funcionamento que ele atribuía ao sistema, mas não resolve a dificuldade: a independência das comunicações, que seria preciso demonstrar, é também o que o método pressupõe.
A crítica não anula a máxima. Obriga a aplicá-la ao próprio método que ela pretende justificar.
O que «razão» queria dizer em 1864
A palavra central da máxima não tinha, em 1864, um sentido único, e é fácil projetar nela o que veio depois.
O quadro filosófico francês continuava fortemente marcado pelo espiritualismo eclético de Victor Cousin, amplamente presente no ensino filosófico. Esse espiritualismo propunha-se demonstrar pela razão, sem depender apenas da revelação, a existência de Deus, a espiritualidade da alma e a liberdade moral. [15] Esse vocabulário fazia parte do horizonte de quem lia e escrevia filosofia em francês em meados do século, e o Livre des Esprits abre precisamente a distinguir «spiritualisme» de «spiritisme», reclamando para o segundo um lugar dentro do primeiro.
Ao lado cresciam outras formas de racionalidade. O positivismo privilegiava o conhecimento assente em factos observáveis e em relações verificáveis. A crítica histórica de Renan tratava os textos religiosos como documentos humanos, datáveis e comparáveis. Kardec, por seu turno, reclamava para os fenómenos espíritas o estatuto de factos de observação.
As posições não divergiam só nas conclusões. Divergiam sobre o que contava como facto e sobre o que era preciso para o dar por constatado. A introdução da Vie de Jésus dá um exemplo nítido: perante um taumaturgo que anunciasse ressuscitar um morto, Renan exigiria uma comissão de fisiologistas, físicos, químicos e críticos históricos, a escolha do cadáver, o controlo das condições e a repetição da experiência. [16] Não fechava a porta ao maravilhoso em abstrato, punha-lhe à frente um protocolo.
Kardec, pelo seu lado, sustentava que os fenómenos físicos de que tratava não eram forças cegas da matéria, disponíveis para repetição sob comando, mas manifestações atribuídas a inteligências que não se sujeitavam à intimação de uma comissão. [17] E para os ensinamentos transmitidos pelas comunicações propunha um crivo de outra natureza: a concordância entre fontes apresentadas como independentes, obtidas por médiuns diferentes, em lugares diferentes. A discordância de fundo está aqui: ambos reclamam exame, mas não reconhecem o mesmo tribunal, nem concordam sobre quem suporta o ónus da prova.
Na máxima, «razão» pode assim ler-se como palavra que reúne realidades diferentes: o espiritualismo racional de cátedra, a observação de fenómenos e a comparação de testemunhos. A força retórica vem dessa amplitude. Para os adversários, a fragilidade também: estes modos de conhecer não exigem o mesmo tipo de prova.
A ironia da receção
A máxima atravessou o Atlântico com o resto do corpus. Na receção em língua portuguesa, uma das formulações mais difundidas é a da tradução de Guillon Ribeiro para a Federação Espírita Brasileira:
Fé inabalável só o é a que pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da Humanidade. [18]
A frase tornou-se epígrafe, cartaz, assinatura institucional, fórmula de identificação coletiva. E aqui a história dobra-se sobre si própria.
Uma frase escrita contra a fé cega e a obediência passiva corre, nessa circulação, um risco preciso: o de funcionar como certificado de racionalidade em vez de exigência de exame. Cita-se a máxima para afirmar que se está do lado da razão, sem aceitar a consequência, que é submeter ideias, práticas, tradições e interpretações ao exame efetivo. Quando é usada para encerrar uma discussão, contradiz o princípio que enuncia.
O deslocamento pode ser lido no contexto de uma transformação mais vasta, que o CEsE procurou documentar num estudo anterior. O movimento organizado em torno de Kardec, da Revue Spirite e da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas foi reconfigurado, sobretudo no Brasil, num edifício institucional com práticas, autoridades e formas devocionais que não decorrem diretamente do funcionamento documentado da sociedade parisiense. [19]
A ironia não diminui a frase. Mostra a sua atualidade. Devolvê-la ao rosto de 1864 é recordar que nasceu como exigência, não como ornamento.
Na primavera de 1864, entre um livro que afastava o milagre da história em nome da experiência e uma autoridade eclesiástica que inscrevia as suas obras no Índex, Kardec imprimiu à entrada de um novo volume que nenhuma fé merece apresentar-se como inabalável se não puder encarar a razão de frente, em qualquer época. Cerca de oito meses depois, o Syllabus tornaria mais visível um dos contrastes em jogo: o da razão que se quer árbitro e o de uma autoridade que reclama para si a definição dos seus limites. A aposta de Kardec era a de que os factos sustentariam o exame. Saber se sustentaram é outra pergunta, e é uma pergunta histórica, não um artigo de fé.
Nota sobre a tradução
O CEsE fixa a sua tradução a partir do francês da edição publicada em vida do autor:
Não há fé inabalável senão a que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da humanidade.
Três opções a declarar. «Senão a que», em vez de «senão aquela que», por economia e sem perda de sentido. «Encarar a razão face a face» conserva de propósito a redundância do original, «regarder la raison face à face», que é ênfase e não descuido. «Épocas» traduz «âges» melhor do que «idades», que em português sugere mais facilmente a idade biológica.
A versão diverge da de Guillon Ribeiro, com «frente a frente» e «Humanidade» em maiúscula. Não é correção dessa tradução, é uma escolha diferente. As duas partem do mesmo texto francês e diferem no modo de o transportar. Para citação histórica, o CEsE toma como referência a forma impressa na folha de rosto da primeira edição, publicada em 1864.
Fontes
[1] Allan Kardec, Imitation de l’Évangile selon le Spiritisme, Paris, 1864, rosto da primeira edição; Revue Spirite, abril de 1864, anúncio da obra «en vente» e reprodução da epígrafe. Fac-símiles das edições: Kardecpedia, https://kardecpedia.com/fr/obra/13. Coleção da Revue Spirite digitalizada na Gallica: https://gallica.bnf.fr/ (pesquisar «Revue spirite : journal d’études psychologiques» e selecionar o ano de 1864 e o fascículo de abril).
[2] Allan Kardec, Imitation de l’Évangile selon le Spiritisme, 1864, capítulo XIX, parágrafo 233 da numeração contínua do volume, pp. 278-279. O parágrafo abre na p. 278 e o fecho citado, «voilà pourquoi elle est inébranlable», lê-se na p. 279. Confronto feito sobre o fac-símile da 1.ª edição (ligação na nota 1) e sobre o exemplar paginável no Google Books: https://books.google.pt/books?id=2ydbAAAAcAAJ&pg=PA278. Na 3.ª edição, revista pelo autor (1866), a passagem corresponde ao item 7 do capítulo e incorpora a máxima. Não verificámos sobre fac-símile se a alteração consta já da 2.ª edição (1865): daí a formulação «revisão posterior» no corpo do artigo.
[3] Sequência editorial: Imitation de l’Évangile selon le Spiritisme, 1864; L’Évangile selon le Spiritisme, 1865 (mudança de título); 3.ª edição, revista, corrigida e modificada pelo autor, 1866 (revisão do texto). Fac-símiles em Kardecpedia (ver nota 1).
[4] Allan Kardec, «Les temps sont arrivés», Revue Spirite, 9.º ano, n.º 10, outubro de 1866, p. 299; o artigo abre o fascículo na p. 289, e a própria Revue de janeiro de 1867 remete para ele por mês e título. O mesmo título reaparece em 1868 como capítulo XVIII de La Genèse, cuja secção final de comunicações provém da Revue de outubro de 1868, p. 313, acrescento de edição posterior que explica a confusão de datação em circulação. Passagem confirmável na coleção da Gallica.
[5] Ernest Renan, Vie de Jésus, Paris, Michel Lévy frères, 1863. Sobre a publicação e a polémica, Perrine Simon-Nahum, «Le scandale de la Vie de Jésus de Renan. Du succès littéraire comme mode d’échec de la science», Mil neuf cent. Revue d’histoire intellectuelle, n.º 25, 2007: https://shs.cairn.info/revue-mil-neuf-cent-2007-1-page-61.
[6] Ernest Renan, Vie de Jésus, 1.ª edição, 1863, introdução. Fac-símile no Internet Archive: https://archive.org/details/viedejsus00renauoft.
[7] Decreto da Congregação do Índex relativo à Vie de Jésus, 24 de agosto de 1863. Philibert Milsand, Bibliographie relative au livre de M. Renan Vie de Jésus, de juillet 1863 à juin 1864, Paris, É. Dentu, 1864, que recenseia 214 títulos (referido por Simon-Nahum 2007, cf. nota 5). Os números da tiragem e das edições vêm de Simon-Nahum 2007 e de Richard 2015 (bibliografia de apoio).
[8] Pio IX, Quanta Cura e Syllabus errorum, 8 de dezembro de 1864, em especial as proposições 3, 7 e 80. A proposição 7 condena a tese de que as profecias e os milagres das Escrituras seriam ficções poéticas e o próprio Cristo uma ficção mítica. Encíclica (latim), no Vaticano: https://www.vatican.va/content/pius-ix/la/documents/encyclica-quanta-cura-8-decembris-1864.html. Syllabus com aparato de referências: https://www.papalencyclicals.net/pius09/p9syll.htm.
[9] Decreto da Congregação do Índex de 25 de abril de 1864, com entradas relativas a Le Livre des Esprits, Le Livre des Médiums, Le Spiritisme à sa plus simple expression e à Revue Spirite; a instrução prévia do processo correu no âmbito do Santo Ofício, a partir de 1863. Sobre a data, o organismo e o processo, com base nos arquivos vaticanos: Francesco Baroni, «The Vatican’s Mediums. The Strange Case of Pope Pius IX and the Spiritualistic Experiences of the Archbishop of Rennes», Religion, vol. 55, n.º 1, 2025, pp. 369-392: https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/0048721X.2024.2440866. Para as entradas do Índex, Jesús Martínez de Bujanda e Marcella Richter, Index librorum prohibitorum, 1600-1966, Montréal/Genève, Médiaspaul/Droz, 2002.
[10] Auto de fé de Barcelona, 9 de outubro de 1861. Relato e comentário de Allan Kardec em «La queue du moyen âge», Revue Spirite, novembro de 1861.
[11] Allan Kardec, «Vie de Jésus par M. Renan», Revue Spirite, maio e junho de 1864.
[12] Allan Kardec, Le Livre des Esprits, questão 625: «Voyez Jésus». Verificado na edição de 1860.
[13] Allan Kardec, «Autorité de la doctrine spirite. Contrôle universel de l’enseignement des Esprits», Revue Spirite, abril de 1864, integrado na introdução da Imitation de l’Évangile selon le Spiritisme.
[14] Allan Kardec, alocução aos espíritas de Bruxelas e de Antuérpia, «Le Spiritisme est une science positive», Revue Spirite, novembro de 1864.
[15] Victor Cousin, Du vrai, du beau et du bien, Paris, 1853. Sobre o lugar do ecletismo de Cousin no ensino filosófico francês do século XIX, ver a entrada «Éclectisme» da Encyclopædia Universalis: https://www.universalis.fr/encyclopedie/eclectisme/. Allan Kardec, Le Livre des Esprits, introdução, item I, distinção entre «spiritualisme» e «spiritisme».
[16] Ernest Renan, Vie de Jésus, 1863, introdução: a passagem sobre a comissão de verificação de um alegado milagre segue-se ao trecho citado na nota 6.
[17] Allan Kardec, Qu’est-ce que le Spiritisme ?, Paris, 1859, capítulo II, «Notions élémentaires du Spiritisme», item 42: os Espíritos «ne sont aux ordres et au caprice de qui que ce soit», e «nul ne peut affirmer qu’un Esprit quelconque viendra à son appel à un moment déterminé, ou répondra à telle ou telle question» («não estão às ordens nem ao capricho de quem quer que seja»; «ninguém pode afirmar que um dado Espírito virá ao seu apelo num momento determinado, ou responderá a esta ou àquela pergunta»).
[18] Allan Kardec, O Evangelho segundo o Espiritismo, tradução de Guillon Ribeiro, Federação Espírita Brasileira, capítulo XIX, item 7. A edição declara por base a 3.ª edição francesa, revista pelo autor em 1866: https://www.febnet.org.br/wp-content/uploads/2012/07/26.pdf.
[19] CEsE, «Da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas às práticas espíritas atuais»: https://cese.pt/da-spee-as-praticas-espiritas-atuais/. Para um estudo académico independente da reconfiguração do movimento entre a França e o Brasil, ver Aubrée e Laplantine 1990 (bibliografia de apoio).
Bibliografia de apoio
Marion Aubrée e François Laplantine, La table, le livre et les esprits. Naissance, évolution et actualité du mouvement social spirite entre France et Brésil, Paris, Jean-Claude Lattès, 1990.
Guillaume Cuchet, Les voix d’outre-tombe. Tables tournantes, spiritisme et société au XIXe siècle, Paris, Seuil, 2012.
John Warne Monroe, Laboratories of Faith: Mesmerism, Spiritism, and Occultism in Modern France, Ithaca, Cornell University Press, 2008.
Nathalie Richard, La Vie de Jésus de Renan. La fabrique d’un best-seller, Rennes, Presses universitaires de Rennes, 2015.