Ao publicar O Livro dos Espíritos em 1857, Allan Kardec apresenta o neologismo Espiritismo. Na Introdução dessa obra, justifica ser necessário um termo novo para descrever um conjunto de ideias que não cabia num vocabulário existente até então.
Quanto ao contexto histórico: em francês, spiritualisme designava, na tradição filosófica, qualquer posição que afirmasse a existência de um princípio imaterial, em oposição ao materialismo.
Já nos Estados Unidos, spiritualism designava o movimento mediúnico surgido nos Estados Unidos em 1848 e rapidamente difundido no espaço anglófono, que não dispunha de uma doutrina codificada e que, na maioria das suas correntes, a reencarnação ainda não era acolhida.
Nenhuma destas designações servia para nomear o que Allan Kardec estava a codificar. Cria, por isso, a palavra Espiritismo, que, em traços gerais, se distingue de Espiritualismo desta forma:
É espiritualista quem aceita a existência de um princípio imaterial, qualquer que seja a sua formulação. A maioria das religiões com noção de alma, e boa parte das tradições filosóficas modernas, são espiritualistas nesse sentido lato. Ser espiritualista não implica, contudo, aceitar a comunicação entre encarnados e desencarnados, a reencarnação ou a pluralidade dos mundos habitados.
O Espiritismo, tal como apresentado por Allan Kardec, define-se como uma ciência de observação e doutrina filosófica: ciência, quanto ao estudo das relações entre o mundo corporal e o mundo espiritual; doutrina filosófica, quanto às consequências morais que essas relações implicam.
Daqui resulta que todos os que se reconhecem como espíritas são também espiritualistas em sentido lato, mas o inverso não é verdadeiro.
Fontes:
Kardec, A. (1869 [1857]). Le Livre des Esprits: contenant les principes de la doctrine spirite sur l’immortalité de l’âme, la nature des Esprits et leurs rapports avec les hommes; les lois morales, la vie présente, la vie future et l’avenir de l’humanité. Selon l’enseignement donné par les Esprits supérieurs à l’aide de divers médiums, recueillis et mis en ordre par Allan Kardec. Nouvelle édition conforme à la 16e édition originale de février 1869. «Introduction», § I. Edição consultada: Le Mouvement Spirite Francophone, 2020.
Kardec, A. (1868 [1859]). Qu’est-ce que le Spiritisme: introduction à la connaissance du monde invisible par les manifestations des Esprits, contenant le résumé des principes de la doctrine spirite, et la réponse aux principales objections. Nouvelle édition conforme à la 8e édition de 1868. Préambule; Chapitre premier, «Petite conférence spirite», Deuxième entretien: Le Sceptique, secção «Spiritisme et Spiritualisme». Edição consultada: Le Mouvement Spirite Francophone, s. d.
Kardec, A. (1864, mai). «L’École spirite américaine». Revue spirite: Journal d’études psychologiques, septième année, mai 1864. Edição consultada: Union Spirite Française et Francophone, s. d.
Kardec, A. (1923 [1858]). Instruction pratique sur les manifestations spirites: contenant l’exposé complet des conditions nécessaires pour communiquer avec les Esprits et les moyens de développer la faculté médiatrice chez les médiums. Nouvelle édition conforme à la deuxième édition de 1923. «Vocabulaire spirite», entrada Spiritualisme. Edição consultada: Encyclopédie Spirite / Union Spirite Française et Francophone, mars 2006.