Hippolyte Léon Denizard Rivail nasceu em Lyon, a 3 de outubro de 1804. A sua formação decorreu na Escola de Pestalozzi, em Yverdon, na Suíça, segundo o método pedagógico de Johann Heinrich Pestalozzi.
O rigor dessa escola marcou a sua formação, tendo Rivail sido considerado um dos discípulos mais eminentes de Pestalozzi e um dos propagadores do seu sistema de educação.
Desde cedo demonstrou uma inteligência acima da média e aos 14 anos já instruía outros alunos menos adiantados.
Embora nascido numa família católica, o facto de ter sido educado num país protestante e de ter testemunhado os atritos resultantes da intolerância fê-lo conceber, desde muito cedo, a necessidade de uma reforma que aproximasse as crenças. Regressado a França, com profundo domínio do idioma alemão, traduziu diversas obras de educação e moral, destacando-se na tradução das obras de Fénelon para alemão (obras essas que o tinham impressionado particularmente).
O seu percurso anterior ao Espiritismo foi sobretudo relacionado com a pedagogia e o ensino. Tornou-se membro de diversas sociedades, entre as quais a Academia Real de Arras, que o premiou em 1831 por uma memória sobre o sistema de estudos mais adequado às necessidades da época. Entre 1835 e 1840, ministrou cursos gratuitos de química, física, anatomia comparada e astronomia no seu domicílio, num período em que poucos ousavam enveredar pelo ensino científico independente. Na sua produção pedagógica, encontramos, entre outras, o Cours pratique et théorique d’arithmétique, d’après la méthode de Pestalozzi (1824), o Plan proposé pour l’amélioration de l’instruction publique (1828) e a Grammaire française classique (1831).
Ao iniciar a observação metódica das manifestações mediúnicas, a partir de 1855, procurou não partir de teorias preconcebidas, mas observar, comparar, analisar e deduzir consequências, segundo a formulação metodológica que viria a apresentar nos seus escritos, recusando qualquer explicação que não resolvesse o conjunto das dificuldades observadas, antes de ser dada como válida.
Defendeu também que, caminhando a par do progresso, o Espiritismo jamais seria ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de algum ponto, modificar-se-ia nesse ponto; se uma nova verdade se revelasse, aceitá-la-ia: «Le Spiritisme, marchant avec le progrès, ne sera jamais débordé, parce que, si de nouvelles découvertes lui démontraient qu’il est dans l’erreur sur un point, il se modifierait sur ce point ; si une nouvelle vérité se révèle, il l’accepte.»
Esta orientação foi publicada originalmente na Revue Spirite de setembro de 1867, no artigo consagrado aos carateres da revelação espírita, e posteriormente integrada como o item cinquenta e cinco do primeiro capítulo da obra La Genèse, les Miracles et les Prédictions selon le Spiritisme, publicada em 1868.
Nos últimos anos de vida dedicou-se ao estudo do Espiritismo, assinando com o pseudónimo Allan Kardec as obras que daí resultaram. Submeteu os ensinamentos atribuídos aos Espíritos a um critério de concordância, comparando comunicações obtidas através de diferentes médiuns e em diferentes centros, processo que conduziu à publicação de Le Livre des Esprits, a 18 de abril de 1857. Seguiram-se as restantes obras principais: Le Livre des Médiums (janeiro de 1861), L’Évangile selon le Spiritisme (abril de 1864), Le Ciel et l’Enfer ou la Justice divine selon le Spiritisme (agosto de 1865) e La Genèse, les Miracles et les Prédictions selon le Spiritisme (janeiro de 1868). Fundou também a Revue spirite, iniciada a 1 de janeiro de 1858, periódico mensal de estudo onde publicava em primeira mão muito do que viria a integrar a obra base, respondia a leitores e a artigos de outros periódicos, e tratava temas em voga na época segundo o ponto de vista espírita. A 1 de abril de 1858 fundou a Société parisienne des études spirites, autorizada por despacho do Prefeito de Polícia de Paris de 13 de abril de 1858, como centro regular de observação e estudo.
Faleceu subitamente em Paris, a 31 de março de 1869, durante os preparativos de mudança de instalações, deixando uma obra que merece ser estudada.
Fontes:
Kardec, A. (1927 [1890]). Œuvres posthumes. Nouvelle édition conforme à l’édition de 1927. «Biographie d’Allan Kardec». Edição consultada: Union Spirite Française et Francophone, s. d.
Kardec, A. (1858, mai). «Société Parisienne des Études Spirites». Revue spirite: Journal d’études psychologiques, premiere année, mai 1858. Edição consultada: Union Spirite Française et Francophone, s. d.
Kardec, A. (1867, septembre). «Caractères de la révélation spirite». Revue spirite: Journal d’études psychologiques, dixième année, septembre 1867. Edição consultada: Union Spirite Française et Francophone, s. d.
Kardec, A. (1868). La Genèse, les miracles et les prédictions selon le Spiritisme. Nouvelle édition conforme à la quatrième édition de 1868. Chapitre premier, «Caractères de la révélation spirite», item 55. Edição consultada: Le Mouvement Spirite Francophone, s. d.
Sausse, H. (1910). Biographie d’Allan Kardec (Denizard-Hippolyte-Léon Rivail). Nouvelle édition. Prefácio de Gabriel Delanne. Lyon. Edição consultada: Bibliothèque municipale de Lyon, Numelyo, cote 441388 (digitalização Google).
Nota: Na obra Œuvres posthumes é indicado que a data de publicação do livro Cours pratique et théorique d’arithmétique foi em 1829. No entanto essa é a única fonte que tenhamos encontrado, onde 1829 é referido. Na Bibliothèque nationale de France, département Littérature et art, está disponível a digitalização da obra, onde consta a data do lançamento como sendo em 1824, razão pela qual optámos por essa datação.